real politik
quinta-feira, setembro 04, 2003
  Por razões profissionais vejo-me forçado a interromper temporariamente este blog. Espero retomar o "serviço" brevemente. 
terça-feira, agosto 12, 2003
  Um pequeno contributo

Com o país em chamas muitos são os dramas vividos, particularmente pelas populações, que vêem assim o fogo rondar pelos seus pertences, pronto a cavalgar impiedosamente casas e florestas, sem conhecer obstáculos. Os únicos obstáculos conhecidos e que “teimam” em fazer frente a tamanha onda demolidora são os bombeiros, e demais forças de segurança destacadas para os auxiliarem, GNR, exército, polícia florestal, sapadores florestais, etc.
Como escuteiro, deparei-me com esta realidade nos dias 2 e 3 de Agosto, quando estava acampado com o meu Grupo na povoação de S. Domingos, algures entre o Sardoal e Vila de Rei, em pleno epicentro das chamas, portanto. Ao fim da tarde de dia 2, em plena confecção do jantar, chegaram 3 ambulâncias mais uns quantos carros de bombeiros e GNR, e pararam defronte do Campo Escutista onde estávamos. De lá saíram vários bombeiros e soldados da GNR que pretendiam a nossa colaboração para a instalação no Campo de uma base de retaguarda, para onde pudessem levar as pessoas entretanto evacuadas, bem como servir de local de descanso para os seus homens. Nem pestanejei, em segundos estávamos todos a organizar o campo de modo a alimentar as pessoas e bombeiros que de pronto viram ali um “pequeno refúgio”.
Confesso que foi um dos raros momentos, senão mesmo o “momento”, em que coloquei em prática tudo o que o Escutismo me ensinou, a mim e a alguns dos meus pioneiros (um pequeno grupo já tinha ido para o novo local de acampamento, mais para sul, em direcção de Abrantes!), deparámo-nos com pessoas em estado de choque, pessoas que tinham perdido as suas casas e animais, bombeiros que desfaleciam literalmente assim que entravam no Campo, em suma, estávamos perante um intenso acontecimento vivido a uma incrível velocidade. Era tempo de agir e não de pensar.
Mas… ao mesmo tempo estou profundamente arrependido de me ter ido embora, eu e o que restava do meu grupo, por volta das 24h. Como disse, metade do meu Grupo estava já num outro local, na tentativa de relançar o acampamento, e nós tínhamos ficado em S. Domingos para arrumar o que faltava; mas entretanto o nosso transporte já nos aguardava. Fomos todo o caminho apreensivos com a situação que deixámos para trás, com a convicção que era ali que deveríamos estar, e não na traseira de uma pick-up.
Nunca senti o Escutismo tão próximo e devido a essa “proximidade” apreendi outro significado para a palavra “servir”.
 
sexta-feira, julho 25, 2003
  A Libéria e a unidade familiar africana

Os recentes acontecimentos na Libéria merecem uma profunda reflexão, nomeadamente sobre a correlação de forças entre etnias diferentes no seio de um mesmo território, mas por impossibilidade profissional do autor destas linhas, a mesma terá que aguardar, até lá apenas um breve apontamento.
O que se está a passar na Libéria (país fundado por escravos norte-americanos em meados do séc. XIX) é, infelizmente, uma não notícia, em virtude de acontecimentos como estes serem a regra e não a excepção na metade sub-sariana do continente africano.
Aquando da partilha do continente pelas potências coloniais do séc. XIX, Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica e Portugal, o mesmo foi retalhado tendo em conta, não as afinidades culturais entre os povos que ali habitavam, mas apenas a geografia, englobando num mesmo território tribos antagónicas. Em parte, é este um dos motivos pelo qual existem tantos conflitos étnicos no seio dos países da África negra.
Outro factor a termos em conta nestas periódicas convulsões é a própria estruturação da unidade familiar africana, em que os membros de uma determinada etnia tendem a privilegiar os seus pares, ostracizando as demais, o que naturalmente gera alguma crispação social.
 
segunda-feira, julho 21, 2003
  Experiências africanas e o golpe de estado em S. Tomé

Conheço bem as duas principais ilhas do pequeno país africano, banhadas que são pelas águas quentes do Golfo da Guiné, S. Tomé e Príncipe, respectivamente o nome desse país. Conheço melhor as suas gentes, devido a ali ter permanecido, numa acção de serviço, o mês de Agosto inteiro do saudoso ano de 1998.
Reconheço que não fui apanhado desprevenido (talvez surpreendido pelo acto em si) pelo facto na semana passada ali ter ocorrido um golpe de estado, protagonizado, não pela hierarquia militar, mas por um, aparentemente, obscuro major. É claro que as reacções a quente são sempre as mais estapafúrdias, como constatámos na comunicação social, mas agora, com o aparente regresso à normalidade social, podemos avançar com uma série de dados para este desenlace.
Ainda em 1998, e após o golpe de estado de 1995, era visível alguma tensão social, não através de actos, mas de palavras e determinados comentários proferidos contra os ministros, provocada pelo extremar das desigualdades na ilha, onde os ministros e demais classe política evoluíam pela ruas da pequena capital em bons automóveis, com ar condicionado e demais extras, quando a esmagadora maioria da população não tinha um emprego fixo e vivia abaixo do limiar da pobreza. Constatei igualmente, em conversas com jovens adolescentes, que o povo tinha visão similar acerca da classe política, não havia diferença entre partidos nem em mensagens políticas – para eles eram todos iguais.
O extremar das tensões foi despoletado pela descoberta de mais jazidas de petróleo, economicamente viáveis, ao largo do seu território na fronteira com a Nigéria, e o facto da população não ver a aplicação prática do pouco dinheiro que entretanto ia entrando no país, continuando a ver as mesmas personagens com os tais automóveis (automóveis e não só), assim, não me parecem totalmente deslocadas as acusações de corrupção que pairam sobre os actuais dirigentes.
Tendo em conta as pressões da CPLP e dos enormes interesses em jogo, estou certo que a situação voltará rapidamente à aparente normalidade que caracterizou nos últimos anos a vida política e social são-tomense.
 
segunda-feira, julho 14, 2003
  Transformações no conceito UAV (unmanned aerial vehicle)

Assistimos na última década à generalização da utilização de drones (veículos não tripulados, principalmente aéreos) em variadas missões, principalmente militares. Estes veículos são maioritariamente utilizados em missões de reconhecimento, embora sejam facilmente adaptados para outras tarefas, como guerra electrónica ou plataformas de comunicações, graças à sua versatilidade.
A pensar nessa versatilidade, inúmeras empresas ligadas ao sector da defesa, como é o caso, entre outras, da israelita Israel Aircraft Industries MBT, comercializam o produto tendo em conta as necessidades dos potenciais clientes, que sejam clientes militares ou civis. Ainda recentemente o governo brasileiro manifestou o interesse na aquisição de alguns destes aparelhos UAV para a vigilância das suas fronteiras na selva amazónica, bastante permeável a infiltrações de traficantes de droga, bem como para a vigilância dos periódicos fogos florestais que aí grassam. Recentemente essas mesmas empresas voltaram-se, tendo por base a tal versatilidade dos aparelhos, para a introdução de armamento a bordo.
A Israel Aircraft Industries MBT assinou contratos na ordem dos 500 milhões de euros com diversos países (entre os quais a Índia e a Coreia do Sul), para a venda do seu produto, Harpy, um UAV armado com uma ogiva de fragmentação e um elaborado sistema de radar e a General Atomics Aeronautical Systems modificou recentemente o seu RQ-1 Predator de modo a poder carregar dois mísseis Hellfire.
Foi esse mesmo RQ-1 Predator o responsável pela destruição de um veículo civil, a 3 de Novembro de 2002, no Yemen, onde seguiam 6 supostos membros da Al-Qaeda, responsáveis pelo atentado ao USS Cole.
Mais do que transformar um UAV numa plataforma de combate, importa modificar a actual doutrina, bem como a mentalidade das chefias, para se obter o máximo rendimento destes novos veículos, quer em termos militares quer em termos civis. Pequenos passos foram já dados, nomeadamente pela Força Aérea dos E.U.A., que os empregou na vigilância armada das linhas de exclusão aérea, tanto no sul, como no norte, do Iraque, e na recente campanha do Golfo em que esses mesmos aparelhos desempenharam variadas missões, quer de vigilância do campo de batalha, quer na localização de alvos.
 
quarta-feira, julho 09, 2003
  China-Rússia: aliados até quando?

As relações entre a China e a Rússia pautam-se sobretudo pela cooperação tecnológica, concretamente a transferência de tecnologia militar através da venda de enormes quantidades de armamento, quer seja a construção de submarinos e navios de superfície ou simples upgrades do software presente nos diferentes sistemas chineses. A esta cooperação tecnológica acrescente-se alguma solidariedade política, como recentemente demonstrou o presidente Putin quando rejeitou a proposta de defesa anti-míssil americana, indo ao encontro das posições oficiais de Beijing, embora tenha anteriormente afirmado que não via problema algum se tal proposta abrange-se a Europa.
Actualmente os dirigentes chineses estão empenhados em colocar o seu país num lugar de destaque ao nível do extremo-oriente, principalmente através do desenvolvimento de uma economia competitiva bem como em realizar apreciáveis investimentos na área da defesa, e é aqui que entram as relações sino-russas.
A par de Israel, e numa escala totalmente diferente, a Rússia é o principal fornecedor de tecnologia militar ao Império do Meio, e isto numa dupla perspectiva, se por um lado encaixa um apreciável montante financeiro com este negócio, por outro lado, torna-se num seu importante aliado, evitando que a China tome acções precipitadas quanto ao equilíbrio de poderes presentes na região. Ou seja, enquanto recupera militarmente, economicamente e politicamente, a Rússia previne-se de futuros choques com a potência emergente.
Mas estas relações pautam-se acima de tudo pelo pragmatismo, pois ao mesmo tempo que Moscovo aprofunda os seus laços com Beijing, procura restabelecer acordos de cooperação política e económica com a Mongólia, bem como fortalecer os laços com a Índia (tal como os Estados Unidos), apoiando-a nas suas pretensões contra o Paquistão, país que recebe ajuda tecnológica (militar, subentenda-se) da China, para além de cortejar o regime de Pyongyang.
Estas relações são como um casamento de conveniência, por um lado a China procura afastar e expurgar qualquer traço de influência russa da área, bem com americana, por outro lado necessita da sua ajuda para a continuação do desenvolvimento dos seus programas armamentistas; a Rússia, procura assegurar-se da quietude da China quanto a futuras confrontações, mas ao mesmo tempo alimenta as suas parcas influências na região à espera de melhores dias.
Face aos interesses em jogo é de esperar, mais década menos década, uma confrontação entre estes dois poderes antagónicos, não necessariamente militar, e isto sem esquecer os interesses americanos presentes na região. 
  A conquista de Coimbra nos telejornais

Bem sei que o assunto foge um bocadinho à temática do blog, mas não pode conter mais a minha perplexidade com a falta de conhecimento por parte de alguns jornalistas.
Na semana passada, julgo eu que na quinta ou sexta-feira, vi uma reportagem nos espaços noticiosos da RTP1, em que os mesmos noticiavam uma encenação teatral levada a cabo em Coimbra e que retrataria a conquista da cidade aos mouros. Claro que a representação teatral se baseara no conhecimento que o encenador possui acerca da Guerra Medieval, ou seja, um conhecimento meramente empírico. Não é isso que está em causa.
O que me chamou verdadeiramente à atenção foi a data de tal conquista proferida pelo pivot do noticiário, “1605”. 1605? Não, pode ser, pensei eu. Ouvi mal de certeza. Mas eis que quando põem a peça no ar, o lucção da mesma acusava a mesma data: 1605.
Tomando em consideração tal datação, podemos pensar que quando Pedro Álvares Cabral chegou o Brasil (1500), os infiéis ainda se encontravam, irredutíveis, em Coimbra. Afonso III conquista em 1249 o Algarve, mas esqueceu-se de Coimbra pelo caminho.
Bastava a estes dois jornalistas possuírem um pouco de cultura geral (eu já nem digo saberem História de Portugal), para facilmente detectarem o erro e emendar, ou nem sequer o proferir, a bem da credibilidade cultural dos senhores que nos servem a informação. Coimbra, a par de outras cidades actualmente localizadas em território português, foi conquistada por Fernando, o Magno, em 1064, que delegou a sua administração no moçárebe D. Sesnando Davides.

 
terça-feira, julho 08, 2003
  As novas dinâmicas do Mar Cáspio e da Ásia Central

O Mar Cáspio, bem como as áreas adjacentes, sempre foram ao longo dos anos importantes fornecedoras de hidrocarbonetos, particularmente petróleo; ou não fosse este local, a par do Texas, uma das suas maiores reservas antes da I Guerra Mundial (1914-1918), despertando mesmo a cobiça de outros povos, casos dos britânicos pós revolução russa, e dos alemães durante a II Guerra Mundial.
Durante décadas este Mar esteve fechado ao Ocidente, servindo a sua produção para alimentar em exclusivo a antiga União Soviética e os países do Pacto de Varsóvia. Após um século de exploração, aplicando a tecnologia disponível, as jazidas conhecidas ficaram praticamente esgotadas, mas nos últimos anos, diferentes geologistas (maioritariamente ocidentais), vieram a terreiro afirmar que o Mar Cáspio encontra-se assente sobre outro mar, um mar de petróleo. As suas estimativas apontam para mais de 200 biliões de barris, o que dava para suprimir as necessidades energéticas dos Estados Unidos para os próximos 30 anos.
Com centenas de contratos assinados (maioritariamente por consórcios liderados por empresas norte-americanas) com alguns países limítrofes (Rússia, Cazaquistão, Azerbeijão e Turquemenistão) para a realização dos investimentos necessários destinados ao transporte de tão precioso produto para os mercados ocidentais e orientais, a região irá tornar-se, nos próximos anos, uma importante peça no xadrez geo-estratégico das nações carentes de petróleo, a par do Golfo Pérsico, o que acarretará as necessárias implicações militares.
Nesta gigantesca teia de interesses o mais fácil já fora feito: a descoberta de novas jazidas, agora segue-se o mais complicado: fazer chegar o petróleo aos mercados ou aos centros de processamento, através da construção de novos oleodutos que necessitarão de atravessar, obrigatoriamente, territórios muito pouco estáveis. Esta tarefa complicar-se-á mais ainda quando os interesses dos variados consórcios afrontarem directamente os interesses russos.
De facto, uma das principais riquezas da Rússia são os hidrocarbonetos (petróleo e gás natural), chegando, em determinados anos, a constituir 44% do total das suas exportações, mas outra considerável fonte de riqueza para os seus cofres são as taxas alfandegárias pagas pelas ex-repúblicas para assim escoarem o seu petróleo através dos oleodutos que atravessam território russo, e qualquer outra solução que não seja a passagem dos futuros oleodutos pelo solo pátrio, não é bem aceite.
Neste jogo geo-estratégico não podemos esquecer os interesses norte-americanos que se encontram há muito presentes na região, através dos variados consórcios, e onde estão os negócios está o interesse vital da maior economia do Mundo, com tudo o que este conceito encerra. Lembremo-nos somente que em Setembro de 1997 tropas da 82ª divisão aerotransportada realizaram um voo de 19 horas, percorrendo 12.500 quilómetros, para serem largadas de pára-quedas no Cazaquistão, para realizarem, em conjunto com forças locais, manobras militares. Este pequeno exercício, envolvendo somente 500 militares, fora interpretado pelos poderes regionais como um aviso acerca das capacidades de projecção das forças norte-americanas, e que após a invasão do Afeganistão foram-lhes proporcionadas bases terrestres nos países adjacentes, constituindo um factor de temor para os interesses russos.

 
Assuntos varios sobre estrategia, politica nacional e internacional (alexandre@mnteverest.net)

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